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Em 1981 foram encontrados, perto de Itaparica, os destroços do Utrecht, uma fragata holandesa a serviço da Companhia das Índias Ocidentais. O navio foi a pique em 1648, na Bahia, durante uma batalha contra os portugueses. Esse episódio, que não é relato nos livros de história, é contado no diário de bordo do almirante Witte de With, comandante da esquadra holandesa.

Portugal estava em guerra com a Holanda, procurando expulsar os holandeses dos territórios que ocupavam em Pernambuco. A supremacia do comando marítimo holandês era indiscutível, mas uma esquadra não tem utilidade a não ser que a esquadra inimiga seja enviada ao mar. Os portugueses estavam a salvo, ancorados na Baía de Todos os Santos. Porém, em setembro de 1648, cometeram um erro: saíram, por motivo desconhecido, com três galeões para o mar aberto. No mesmo dia, sete embarcações holandesas, comandadas por With, deixaram Recife para encontrar os navios portugueses nas águas da Bahia.

O momento crucial da batalha aconteceu entre dois navios holandeses e um português. Os navios holandeses eram o Utrecht e o Huys Nassau e o português, o N.S. do Rosário. Este foi simultaneamente abordado, nos dois flancos, pelas naus holandesas. O capitão português cumpriu fielmente as instruções do rei de Portugal para situações como essa: explodiu o navio com toda a tripulação a bordo. Na aritmética da guerra, Portugal perderia um navio que, de outro modo, seria capturado pelo inimigo; a Holanda perderia dois.

Quando a fumaça da tremenda explosão se dissipou, só restava sobre as águas o Huys Nassau em chamas, e alguns poucos sobreviventes ilesos agarrados aos destroços do Utrecht, que ainda flutuavam. O Huys Nassau à deriva, abandonado, encalhou na ilha de Itaparica; posteriormente, os Portugueses o recuperaram e quatro meses depois o relançaram ao mar com o nome de Fortuna. O N.S. do Rosário desapareceu por completo. Do Utrecht sobreviveram 26 homens, inclusive o capitão. Os destroços, encontrados e recuperados 300 anos depois, naufragaram de forma concentrada, motivo pelo qual conclui-se que a popa deve ter afundado praticamente intacta.

Dentre tudo que tinha a bordo, os objetos de material orgânico apodreceram e sumiram logo (com raras exceções, como por exemplo, o martelo); os objetos de aço e ferro enferrujaram e também sumiram. Sobraram somente os objetos não orgânicos e não ferrosos, como os de latão, bronze, pedra, e acima de tudo, estanho.

O estanho achado no Utrecht constitui nesse momento, até que se encontre outro naufrágio mais importante, a maior coleção de estanho no mundo, com data tão precoce e específica. O achado de Port Royal, Jamaica, é maior, mas é de 1699. O achado do Mary Rose é de 101 anos antes, mas a quantidade de estanho é muito menor.

O estado dos objetos, quando achados, varia entre quase perfeitos (como o clyster uretral, ainda em estudo para uso) e completamente carcomidos, ou até quase irreconhecíveis, como por exemplo, o pedaço de clyster maior, que só foi reconhecido em conexão com a comadre, usada concomitantemente. No catálogo também há fotografias das peças no seu estado original, antes da limpeza e restauração por John Somers.

John Somers dedicou quase 5 anos a um trabalho de pesquisa visando à identificação, restauração e reprodução desta coleção. O catálogo abaixo mostra o produto deste trabalho. O achado se divide em duas partes distintas: Utensílios de uso diário dos oficiais e utensílios (Gereetshappen, em holandês da época) do cirurgião.

A primeira categoria contém utensílios de mesa, de comida e de bebida, muito interessantes e que concordam perfeitamente com as cenas de interiores, tão conhecidas da pintura holandesa da época. Por exemplo, temos o famoso pichel Jan Steen com bico longo para facilitar seu uso à mesa. As colheres, escudelas e a bacia grande são provas da maneira de comer e do tipo de comida da época, a maior parte da qual era ensopado.

O saleiro de estanho é muito interessante. Esse formato, alto, aberto, é conhecido de inúmeras Naturezas Mortas da época, em prata ou mesmo ouro. O saleiro tinha, na Idade Média, um significado social e um simbolismo muito grande. Sal era sagrado, é raiz das palavras soldo e soldado, com atribuições mágicas, foi a primeira "commodity" da Europa, que permitia salgar e conservar comidas durante o inverno duro.

Em 1648 a forma perdurava, mas o simbolismo enfraquecia. O nosso exemplar é um tambor ou cilindro, reversível, com duas pontas com depressões para o sal, de formato igual. Ainda não temos explicações para isso. Os dois pichéis, que batizamos com o nome Amsterdam, não tem semelhantes em nenhum quadro da época conhecido por John Somers, nem ele tem visto igual em qualquer coleção do mesmo período, porém a forma é parecida com outros conhecidos de Amsterdam.

Da colher "Trifid" achou-se uma inteira e restos de outra. Em 1648 esta forma era bem moderna, recém introduzida. Temos na coleção outras colheres de vários formatos, uma das quais de prata, muito bonita e trabalhada, do tipo conhecido como "Apostle spoon", em inglês.

O pênico, utensílio pouco sujeito a modismo, corresponde exatamente aos tantos que aparecem com muita fidelidade e representação nos interiores da época.

Um pequeno grupo interessante é composto pelo castiçal de latão, o compasso e tinteiro, que podemos presumir tenham sido de uso do capitão. O uso de chamas a bordo era muito controlado devido ao risco de fogo e não menor risco de explosão. O tinteiro é o mais antigo exemplar deste formato conhecido no mundo. A forma continou em uso até meados do século XX.

Porém, o que imprime a este achado o cunho de "excepcional" é o grupo de objetos de uso do médico. Os clysteres, a espátula, a comadre, a caixa de ungüentos e a ventosa, são de fácil identificação, mas a identificação do conjunto inteiro se deve à inestimável ajuda da Sra. Odilia van Boetzelaer do Rijksmuseum, Amsterdam, que estava pesquisando exatamente o equipamento de bordo dos navios da Companhia das Índias Orientais de meados do século XVIII, e nos mandou uma cópia das instruções dadas aos cirurgiões destes navios, datada de 1739. Embora nosso navio tenha afundado 91 anos antes, a lista dos utensílios coincide, quase que exatamente, com o que nós achamos.

Além dos objetos de estanho reproduzidos por John Somers, e oferecidos na "Caixa do Cirurgião", foram também achados os seguintes objetos que constam da Ordre en Instructie Voor de Chirugyns:

· 1 Almofariz (Holandês: Mortier en Stamper)
· 1 Tesoura (Holandês: Scheerbekken. Ainda se encontra sob concreção).
· 1 Funil (Holandês: Trechter)
· 2 Panelas (No Museu de John Somers temos três panelas de cobre, mas não temos certeza de que sejam as mesmas aqui mencionadas).
· 1 Balança (Holandês: Schaaltje met gewicht). Não foram achados os pesos.
· 1 Pedra de afiar (Holandês: Oly Steen)

Os originais destes se encontram no Museu da Marinha (RJ) e outros no Museu John Somers.

Os itens do cirurgião estão sendo oferecidos em edição limitada de 5.000 peças. Pode-se adquirir o conjunto inteiro no estojo, que imita uma caixa do século XVII, com numeração de 1 até 200, ou pode-se comprar as peças uma a uma, sendo usados os números de 201 em diante para as peças avulsas.

Todas as peças são carimbadas com o nome do navio, a data do seu afundamento e o lugar, Bahia. Além disso, cada item das peças do cirurgião é carimbado com seu número individual da edição.

UT16 UT22 UT25
UT7 UT9 UT32

John Somers Estanhos
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